
A quanto tempo não deixo as pretenções de lado,desligo minha mente e deixo com que as palavras surjam sem medo de serem ouvidas, sem pressa pra fazerem sentido.
Tem algo desconcertante que preciso acreditar ser comum a muitos.
Tem algo que inquieta aquelas partes do meu dia em que eu deveria me doar ao mundo, deixar um pouco de ser sozinha.
A quanto tempo não combino acordes por puro prazer e não pra vende-los em uma letra vazia.Apenas para guarda-los nessa caixa empueirada que se tornou minha memória.
Lembro-me dos gostos que as coisas tinham quando sentir era apenas entrar em contato e deixar cada póro, cada tecido, fazer a sua parte.
Lembro me de quando sentir não levava nada em consideração.
Lembro bem, acho que era criança.
A felicidade ainda cheirava a poeira.
Os medos sumiam de luzes acesas.
Eu durmia e acordava sempre inteira.
Tinha um mundo nas mãos.
O mundo cobra coisas que nunca seremos capazes de pagar.
Mas,o maior vilão de mim se encontra aqui,querendo maquiar meus traços e minhas cicatrizes,que sempre foram tão minhas, tão eu.
Querendo me adaptar a uma prateleira fria, cheia de holofotes,cheia de falsa vida. Aqui! dentro de mim, tentando contornar o que eu sou,redimir minha alma em verdades concretas.
Quero o cheiro da terra que tinha em meus pés quando eu não sabia me calçar.Quero ver as manhãs que essa cortina me esconde.
Dei pra imaginar coisas que sentia,assim, tão simplismente.
Quero meu medo do escuro pra ser minha maior razão de chorar.
Me quero de volta, sem essas coisas que carrego que não são minhas.
A cada passo, em cada canto, acretitavam que eu suportaria,que todos suportariam carregar sonhos e planos alheios, trejeitos e vontades que se acomodam sozinhos em cima das costas.
Não quero mais esse peso em mim.
Quando foi que eu desisti de escolher?
quando foi que eu me deixei convencer?
Que tudo igual era mais bonito, mais fácil de fazer retoques,de manter em ordem, de pacificar.Onde foi que eu me deixei vender, porque eu me quero de volta e sei que a um preço a pagar.
Fui habitada por um ser, por um mundo de seres.
Fui anfitriã feliz da minha própria falsidade.
Tive o mundo nas mãos, quando me cabia.
Prometendo-me menos dor deixei que trocassem-me os sentidos pela razão.
E, derrepente o medo que me fazia tão menina, virou precaução.
A falta de luz era certeza da solidão, que embora havia virado força,no fundo ainda fazia doer.
Meus amores viraram papéis. A alegria apenas distração.
Me vi sem sede, cor ou sequer intimidade.
Minhas palavras não viravam mais poesia.
meus acordes não viraravam mais canção...
Preciso,denovo, me ouvir soar.